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Pimenta no dos outros…

(Imagem: Pixabay)

Coisas & Causos de Foz

Um dos pioneiros da Vila Yolanda não era conhecido pelo nome de batismo, mas sim pelo apelido: “Porquinho”. Ele era estivador no Porto Oficial (margem brasileira do Puerto Presidente Franco), por onde passavam, obrigatoriamente, todas as mercadorias e todas as pessoas que iam ou vinham do Paraguai.

O “Porquinho” era um cara baixinho, atarracado e não tinha o biotipo de nadador. Mas uma de suas façanhas e predileções era nadar até o outro lado do rio Paraná e trazer amarrado em seu pescoço, um litro de Aristócrata, aguardente amarelada, produzida e envelhecida no país vizinho.

Queria ver o “Porquinho” alegre? Bastava encomendar pra ele um litro de Aristócrata. Na hora ele pulava na água, cruzava o “Paranazão“, chegava na Casa Ramírez Hermanos, onde comprava a encomenda e já voltava para o lado brasileiro, à nado. Era rapidinho.

Quando não tinha muito serviço de estiva e ele ficava meio duro, voltava mais cedo pra casa, mas antes passava no Boteco do Tomasito e pendurava uns tragos. Ele não era de muita conversa. Conversava apenas o necessário.

Eu tinha e ouvia os “meus bêbados” e o “Porquinho” era um deles, assim como o “Polaco Loko”, “Kaldeish”, “Negrito Cambota”, “Cacho”, “Belisário” etc.

Num desses dias sem movimento no Porto, “Porquinho” passou mais cedo no Boteco, que ficava no endereço antigo, no M’Boicy, do lado da Casa Leli, a uns 70 metros do rio que deu nome ao bairro.

Ele chegou, me avisou que não tinha dinheiro algum, mas que ia tomar uns tragos. Me pediu uma cachaça fiado e eu disse: – Ok!

Tínhamos recebido um fardinho de Pimenta do Reino. Vinha num saco de papel como se fosse de pão, só que mais resistente. Vinha nessa embalagem e por cima, bem amarrado, umas folhas de jornal, para que a ardência da especiaria não se perdesse.

Eu desembalei o pacote e coloquei a pimenta em um vidro desses usados para fazer conservas de Rollmops (sardinhas enroladas na cebola em conserva, uma delícia, por sinal!).

Comentei que era muito forte aquela pimenta! Mesmo! E ele… que estava a uns 4 metros do balcão, me pergunta o que era tão forte? Eu respondi que era a Pimenta do Reino e ele começou a me zoar!

“Onde já se viu Pimenta do Reino ser tão forte assim?” perguntou, tirando sarro de mim.

Nessa hora, não consegui segurar o meu “espirito de porco” e então, disse ao “Porquinho” que se ele comesse, mastigando na minha frente, uma colherada daquilo, eu não cobraria os tragos dele.

Bah… ele topou na hora!!

Enchi uma colher de sopa com vontade e passei pra ele.

Ele meteu tudo na boca, começou a mastigar e…. não demorou nem 10 segundos… saiu correndo pela hoje avenida Paraná, em direção ao Rio M’Boicy.

Eu e três bebuns que testemunharam o fato saímos correndo atrás dele. “Porquinho” se jogou na água com roupa e tudo. Lembro que ele mergulhava e cuspia água pra cima….e gritava que ia morrer! E os outros? Todos rindo.

Nessa hora, me bateu o desespero, pois eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, iria levar um corretivo!

Ele ficou uma meia hora na água e na volta nem chegou perto do Boteco. A turma até chamou, mas ele… nada.

Mesmo com medo da “reprimenda” que levaria do meu pai, eu sentia vontade de rir porque lembrava dele com lágrimas nos olhos enquanto mastigava a pimenta! Putz!

O “Porquinho” ficou uns dias ressabiado e não chegava nem perto do Boteco.

Só soltei o nó do peito, depois que ele voltou e… (eu já esperava!) disse na frente do meu velho, que nós dois éramos culpados! Pensa!

Andres Cândia

Por Andres Cândia

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