Sem categoria

“Calhordices da pandemia”

Após tomar conhecimento de vários depoimentos de trabalhadores e de cidadãos que estão sendo obrigados a fazer coisas absurdas durante a pandemia, a infectologista Flávia Trench, que também é professora Assistente no curso de Medicina da Unila, postou um texto na internet, denunciando algumas situações, que foram enumeradas e qualificadas por ela como “calhordices da pandemia”.

Entre os relatos aos quais Flávia teve acesso estão: pedidos de patrões que querem saber o resultado dos testes dos funcionários, empresa obrigando marido de paciente positivo a voltar ao trabalho, empresários que só aceitam o afastamento do colaborador que testar positivo, e empresas que não aceitam o atestado do plantão Covid-19.

Confira as “Calhordices da Pandemia”:

“Calhordice 1 – paciente foi na triagem do hospital pela manhã, colheu exame, recebeu atestado de isolamento domiciliar e, à tarde, passeando no shopping, foi avistada pela aluna que a atendeu. A desculpa da paciente: “Eu não sabia que o atestado já valia à partir daquele dia.”

Calhordice 2 – patrão acha um absurdo que após apresentar qualquer sintoma respiratório, o funcionário seja isolado em casa e tenha que colher exame. A preocupação: “Assim, daqui à pouco, a empresa fecha por falta de funcionários”.

(Foto: Arquivo Pessoal)

Calhordice 3 – a empresa com ambiente propício a surtos de grandes proporções passa a não aceitar o atestado de isolamento domiciliar emitido pelo plantão Covid (atestado, aliás, que tem validade legal e certificação digital que possibilita a verificação da autenticidade) e exige atestado médico, caso contrário o funcionário tem que voltar a trabalhar colocando em risco não só os colegas, mas familiares e toda a comunidade.

Calhordice 4 – indivíduo informa, no domicílio coletivo (pensão, república, o que seja) onde tem quarto individual, que testou Covid positivo e é expulso pela dona da casa.

Não, não são relatos de completa ficção. São versões das faces menos solidárias da pandemia, onde você vê o pior do ser humano: egoísmo, ganância, desrespeito, etc.

É por situações assim que a epidemia progride e ganha força. Porque o que cada um de nós faz, reflete nos demais.

Ou cada um de nós pára um pouco de pensar só no próprio umbigo e olha mais para o coletivo, ou esta história vai acabar muito mal pra todo mundo.”

Não é só sobre um vírus ou uma doença. É uma crise de valores, de essência, de fundamento, de princípio e, ao mesmo tempo, uma enorme chance de refletir, repaginar e recomeçar de um jeito mais harmônico, mais solidário e mais igualitário de viver neste mundo.

Um dia tudo isso vai passar, mas depende de nossas atitudes de agora, se as próximas gerações vão nos olhar com orgulho ou horror.”

  • Lembrando que a relação patrão x empregado pode ser levada ao Ministério Público do Trabalho, que fica próximo à sede da Policia Federal. Já na questão do inquilino que foi expulso por estar infectado, o caminho seria a Defensoria Pública da União ou o Ministério Público. O proprietário do imóvel também poderia acionar as autoridades sanitárias ou de assistência social. 

Por: Dra. Flávia Trench (CRM 12550), professora Assistente do curso de Medicina da Unila.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *