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Não somos uma ilha!

Com a reabertura da Ponte da Amizade, nesta quinta-feira (15), a infectologista Flávia Trench resolveu escrever e expor a visão dela, diante do impacto da reabertura da fronteira. Na imagem, a Ilha Acaray, que fica na fronteira entre o Brasil e o Paraguai. (Foto: Gentileza) 

“Nas últimas semanas tenho sido questionada sobre qual o meu ponto de vista sobre a reabertura da Ponte da Amizade e sua possível repercussão nos casos de Coronavírus na cidade de Foz do Iguaçu. Bem.. lá vai.

Primeiramente é preciso deixar claro que toda e qualquer atitude de “abertura” (do comércio, da ponte, das escolas, dos cinemas, do parquinho infantil, da igreja, do puteiro, etc…) amplia a possibilidade de contatos entre humanos e estes, por sua vez, favorecem a troca de secreções e, de brinde, eventualmente, de coronavírus..

Portanto, na sequência de qualquer ação do tipo, é liquido e certo que teremos aumento das seguintes ocorrências: – total de casos da doença, – pacientes graves, e… aumento na taxa de ocupação dos leitos hospitalares, principalmente os da UTI, já que um doente grave de coronavírus “aluga ” uma vaga por quase um mês, sem falar no tempo em que vai ficar internado na enfermaria e convalescendo em casa .

Sabedores disso, cada um por sua conta, deve fazer um exercício de avaliação do próprio risco objetivo de adoecer gravemente e eventualmente morrer, caso seja infectado com o SARS-CoV2 .

Num segundo momento é interessante, ao menos para os mais generosos e empáticos, que façam o mesmo com as pessoas com as quais convivem como, por exemplo: familiares, namoradas (os), amigos de fé e irmãos camaradas .

Avaliação feita, risco aferido, cada um deve fazer a seguinte pergunta: O risco que eu ou alguém de quem eu sou muito próximo e com quem convivo vale para que eu me exponha ao vírus num contato não essencial??

Exemplo hipotético – A vontade que eu estou de sair por aí ‘metendo o loko’, vale o risco de eu me expor ou expor a vó Alzira , o tio Luizinho ou o meu amigo Clodoaldo, que é jovem  e está acima do peso, ao risco aumentado de morte por esta doença?

Coloque tudo isso na balança, tire um tempo para uma reflexão ponderada e tome uma decisão. Suas opções são basicamente três:

1- meter o ‘loko’ sem cuidado e depois viver (ou não) com as consequências;

2- deixar fluir apenas 1/8 da sua loucura e participar de encontros não essenciais, de maneira protegida escolhidos a dedo; ou

3- ficar em casa e só sair bem protegido e para encontros essenciais (mercado/farmácia/hospital e cia), criando formas alternativas para manter encontros virtuais e conservar a saúde mental.

As dicas acima estão focadas na responsabilidade que cada individuo deveria cultivar, seja consigo mesmo, seja com as outras formas de vida, ao tomar decisões e fazer escolhas, principalmente as que impactam no coletivo.

Como bem me ensinou meu querido professor de biologia Zenkiti , quando eu cursava o primeiro ano do ensino médio no Colégio Arquidiocesano de São Paulo, mais ou menos na época em que os dinossauros foram extintos da Terra, a nossa liberdade acaba, onde começa a do outro. Afinal, ninguém é uma ilha!”

Do ponto de vista de Saúde Pública para que a reabertura da Ponte da Amizade (e futuramente a da Fraternidade) não se torne um evento que venhamos a lamentar, seja agora por conta da Covid-19, ou seja no futuro, por fatos semelhantes, entendo que algumas proposições são razoáveis. Algumas para aplicação imediata e outras para ao menos começarmos a pensar, pois são tão ou mais necessárias que as de bate-pronto. Entre elas estão:

1- Manutenção das medidas de distanciamento social na circulação da tríplice fronteira: mantenha  2 metros de distancia entre os indivíduos, exija e use adequadamente a máscara, use e disponibilize álcool gel e limpe periodicamente as superfícies onde existe mais contato, como maçanetas, balcões e mesas.

2- Controlem o fluxo de pessoas dentro dos estabelecimentos comerciais e na circulação pela ponte da amizade para garantir maior adesão às medidas acima.

3- Divulguem amplamente informações sobre formas de contágio, sintomas e medidas preventivas para a Covid-19 entre as pessoas que circulam pela fronteira. .

4- Divulguem amplamente na região da Ponte da Amizade os números de telefone e de WhatsApp para teleatendimento dos pacientes com sintomas respiratórios leves pelo plantão Covid. Os números são: 3521-1800 e 0800-645-5655.  O acesso é gratuito e está associado ao serviço de TELEMEDICINA do SUS.

5- Também é necessário aperfeiçoar, avaliar continuamente e ampliar, conforme necessidade, as estruturas assistenciais de forma a fazer frente ao incremento de casos da Covid-19 que a reabertura da fronteira fatalmente nos trará (plantão telefônico, telemedicina, laboratório, leitos de internação, estruturas de vigilância entre outras).

6- Estabelecer e manter uma linha de comunicação com as autoridades paraguaias e argentinas para ações conjuntas referentes à pandemia na Tríplice Fronteira. Isso seria um embrião para a criação de um serviço conjunto ágil e efetivo de atenção a saúde na região fronteiriça, capaz de coordenar ações de monitoramento e vigilância ativa além de auxiliar em intervenções de prevenção e controle de doenças infecciosas adequadas as particularidades locais, tornando a região mais segura em termos sanitários para todos seus habitantes e visitantes. Podemos até servir de modelo de saúde única para outros países em áreas fronteiriças.

7- Incrementar a aproximação e estabelecer cooperação oficial e contínua entre as Faculdades da Tríplice Fronteira, estimulando ações conjuntas de ensino, pesquisa e extensão em benefício a população multiétnica de nossa região.

8- Divulgar de forma clara, ampla e transparente as informações sobre a situação da pandemia na Tríplice Fronteira por meio de boletins periódicos.

9- Entender, de uma vez por todas, que somos interdependentes e que todas as ações de reabertura só estão ocorrendo porque hoje temos conhecimento (que a ciência nos proporcionou) e estrutura preventiva e assistencial (que o esforço coletivo bem direcionado construiu) adequados para fazer frente ao aumento de casos que inevitavelmente ocorrerá.

Não significa que a pandemia acabou na nossa região e também vale deixar bem claro que a manutenção de nossos resultados favoráveis (em termos de pacientes recuperados e da oferta de exames e de leito hospitalar para quem necessita) só vai se sustentar se cada um de nós continuar fazendo a sua parte. Afinal, ninguém é uma ilha!”

Dra. Flávia Trench
CRM 12550-PR – Infectologista
Professora Assistente do Curso de Medicina da UNILA – Universidade Federal da Integração Latino-Americana

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