Foz do IguaçuParaná

Após comemorar os 100 anos, a “Vó Maria” já pensa nos próximos aniversários

Entre as 10 dicas de vida, ela selecionou as principais que são: tenha fé, esqueça o passado e viva, coma polenta com queijo e tome vinho. (Fotos: Arquivo da Família)

A “Vó Maria”, como é chamada por muitos que a conhecem, nasceu em 1922, em uma área de mata próxima ao rio Paraná, no município de Santa Helena, oeste do Paraná. 

A menina morena, alegre, curiosa e inteligente aprendeu a trabalhar desde cedo e, por ser muito habilidosa com os números, era a responsável pela venda dos frangos criados na chácara dos pais.

Na época, o comércio era feito por meio de barcos, com os viajantes que desciam e subiam o rio Paraná, entre Porto Mendes e a Argentina.

O jogo de café e o casamento – Em um dia de muito calor, no verão de 1936, quando tinha 14 anos, a jovem Maria se aproximou do rio para vender os frangos, como sempre fazia. Mas avistou, entre os produtos comercializados no local, um jogo de café de porcelana japonesa.

“Me criei no meio do mato. Nunca tinha visto algo tão bonito e queria o jogo para mim”, contou.

Ao perguntar o preço ao vendedor, ela logo soube que ficaria muito caro. Mesmo assim, ao argumentar com a mãe, explicou que seria útil ter um jogo de café, para receber bem os visitantes. Depois de uma semana argumentando, finalmente a mãe de Maria liberou cinco frangos que ainda estavam em processo de engorda, em troca pelo tal jogo de porcelana.

O vendedor da “coberta de mesa em porcelana japonesa”, era Donato, que poucos anos depois se casou com Maria. O casamento foi a condição do pai dela para a mudança do casal para Foz do Iguaçu.

Foz do Iguaçu – Menos de um mês depois de se unirem oficialmente, Maria e Donato chegaram à fronteira. Ela veio antes, de barco. Desembarcou em Foz em 1940, no dia de São João Batista, padroeiro da cidade.  

Donato, que era marceneiro, montou uma balsa com a ajuda do irmão dele. Foi com a balsa que ele “desceu” o rio até chegar a Foz. A viagem durou um dia.

Donato trabalhou na construção de casas e com a ajuda de Maria montou uma venda na Almirante Barroso, no centro de Foz, a Casa Popular. Quando ele precisava de mercadorias, pegava o barco e subia até Santa Helena e outras cidades da região. Maria ficava cuidando do comércio que funcionava junto à residência deles.

“A gente trabalhava muito. Acordava antes do dia nascer, com o som dos pássaros e deitava por volta das 23h. Como a cidade era pequena, todos se conheciam.”

Em 1941 nasceu o primeiro dos três filhos do casal. O parto de Inácio Colombelli foi feito pela sogra de Maria.

Os negócios prosperavam e Donato comprou um caminhãozinho que ligava na base da manivela, chamado de “Sete Pecados”. Maria riu muito ao explicar o “nome” do veículo.

“Era velho, todo estranho, mas nos ajudou muito. Era com ele que íamos até a barranca do rio receber as mercadorias que chegavam de barco”, contou.

Paixão pelos barcos – Apesar de estar indo bem nos negócios, Donato sempre foi um apaixonado pela água. Como os barcos eram essenciais para a movimentação de mercadorias na época (ainda não havia rodovias), ele resolveu construir uma embarcação simples, que foi equipada com um motor Bolinder, de origem italiana.

“Com esse barco ele ía para Porto Mendes e Santa Helena na segunda-feira e voltava para Foz na terça (no verão) ou na quarta-feira (no inverno).”

Em sociedade com um amigo, de origem italiana, um barco maior foi construído e equipado com o motor da antiga canoa. 

Depois disso, a nova empreitada foi o Santo Antônio, embarcação ainda maior, que recebeu um motor novo, de uma marca até então desconhecida, que funcionou por um bom tempo.

A derrocada – Com as boas experiências, Donato e o sócio resolveram investir em uma embarcação voltada para o turismo na região trinacional. Começaram a montar o barco, com peças de aço pré-fabricadas em Porto Alegre.

Só que o motor do barco anterior acabou fundindo e a dupla parou de ganhar dinheiro já que não tinha mais como movimentar mercadorias.

Como a vida da família sempre foi de muito trabalho, os Colombelli não desanimaram. Donato continuou negociando, agora com o apoio do caminhão “Sete Pecados”. Ele circulava pela cidade, vendendo as mercadorias que comprava na região.

Maria teve o terceiro filho depois da venda do barco e passou a cuidar da casa e das crianças, além de vender lasanhas, tortéis, capelettis e outras massas que fazia.

“Sempre gostei muito de cozinhar. Desde pequena. Hoje está complicado por causa da dificuldade em andar, mas vou voltar para a fisioterapia e ano que vem vocês vão me ver batendo pernas novamente”, garantiu.

Donato morreu um tempo depois de sofrer um derrame, enquanto caçava com amigos, há mais de 40 anos. Ele chegou a ser levado para Londrina, cidade para a qual a família se mudou temporariamente, mas não resistiu. Maria cumpriu o que prometeu quanto casou e, na doença, se tornou a voz, as mãos e os pés de Donato, que foi enterrado em Foz.

Segundo os netos da “Vó Maria”, quando eles perguntavam como ela conseguia levar a vida com tanta alegria, mesmo diante do que passava, ela respondia com um sorriso “que havia pessoas em pior situação e que tinha mais pra agradecer do que para pedir”.

Hoje, sem os três filhos, Maria também não lamenta.

“Sim, eu fico triste às vezes porque queria eles por perto, mas sei que eu não posso fazer nada. Deus quis assim e eu não posso fazer nada a não ser seguir a minha vida”.

100 anos – No dia do aniversário da “Vó Maria”, comemorado no dia 19 de junho, na capela Nossa Senhora do Rosário, amigos e familiares se reuniram para uma Missa de Ação de Graças e para um almoço.

Plena, maquiada pelo bisneto, Victor Colombelli, com cabelo feito e com a ajuda da bengala, ela entrou na Igreja.

O vídeo que Victor fez enquanto preparava a bisavó para festa dos 100 anos, viralizou. 

Maria contou que tinha saído do hospital na tarde anterior, após ficar uma semana hospitalizada. Na manhã do domingo (19), ela tomou café e deixou que o bisneto administrasse tudo.

“Só vi a minha mesa, que é grande, toda cheia de caixinhas e ele me explicou que cada caixinha tinha uma função diferente. Sentei às 8h e levantei às 11h. Quando vi o resultado, só me reconheci por causa da roupa”, contou entre gargalhadas. “Nunca tinha usado cílios postiços, mas me pareceu que sempre usei”, contou.

A festa, organizada pelos filhos do primogênito, Inácio Colombelli, foi emocionante.

Dicas da Vó Maria – Quando perguntei sobre “saber viver”, ela afirmou que é preciso:

  • ter fé em Deus,
  • beber vinho,
  • comer polenta com queijo, vaca atolada, torresmo, o que você preferir e puder,
  • se cercar de pessoas boas,
  • praticar o bem,
  • ocupar a mente,
  • nunca desistir,
  • fazer fuxicos (flores de retalhos que ela redescobriu há seis anos),
  • ser feliz nas pequenas coisas e deixar o passado para trás,
  • e… beber mais vinho.

Alimentação – Sobre a alimentação, Maria disse que toma cuidado apenas com ovo frito à noite porque vez ou outra, não cai muito bem.

“Agora, quanto ao restante, desde que acompanhado por um copinho de vinho sempre ao meio-dia, é muito bom”, garante.

Perguntei se ela gosta de feijoada e a resposta foi bem rápida: “Feijoada? Ah… que pena que não tem todos os dias”, disse rindo novamente.

A “Vó Maria” também garantiu que um golinho de Campari antes do almoço, também ajuda a melhorar o apetite e o astral.

O jogo de café – Lembram do jogo de café negociado e adquirido por Maria, na adolescência? Ele ficou com os pais dela que já morreram e passaram para os filhos.

Maria vinha procurando o jogo de porcelana japonesa há anos e, finalmente, no fim do ano passado, conseguiu reaver as peças. São lindas e têm história. Dá medo de tocar nelas, porque são bem finas e a “Vó” falou que nem usa, por medo de perder mais xícaras.

Ao sair, depois de recusar um café colonial (que eu sei, seria ótimo), disse que ela estava morando em um local privilegiado, em frente a uma reserva verde de um condomínio que fica do outro lado da rua para onde se mudou há pouco mais de cinco anos, para ficar perto dos netos. Ela respondeu mais uma vez com humor.

“Logo que mudei pra cá pensei: meu Deus, onde fui me enfiar. Nasci no meio do mato e não quero morrer perto do mato. Mas agora já me acostumei porque os pássaros aparecem pra fazer a nossa festa todos os dias, e eu agradeço”. Para finalizar, ela falou “que tem tanta história pra contar que é só aparecer novamente, afinal, ano que vem eu vou comemorar ‘um’ ano”!

Cris Loose Compartilha 

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